Baixei o jogo na noite do seu lançamento
e até o momento já evoluí meu personagem até o nível 21. Meu irmão, alguns anos
mais novo do que eu e com mais tempo livre já está no nível 23. Isso não é nada
comparado aos outros jogadores que vemos por aí, que já estão no nível 30 ou
acima (o nível máximo do jogo é o 40). Dos 150 monstros possíveis de serem
capturados, até o momento em que escrevo este texto, tenho 95, conquistados
depois de muita dedicação e insistência. Pois Pokémon Go, para o desapontamento
de alguns, é um jogo de insistência e repetição e não um jogo de habilidade.
Trata-se de um RPG clássico, como Final Fantasy, mas com uma mecânica
totalmente adaptada para as ruas. Ao invés das batalhas constantes e
repetitivas dos primeiros RPGs em plataformas digitais, a repetição se encontra
no ato de capturar monstros - no fim se trata somente e exclusivamente disso:
capturar incessantemente o maior número de monstros possível.
Para quem não conhece, Pokémon é
um dos produtos de maior sucesso da Nintendo, tendo sua própria companhia, separada
da que lhe deu origem. É um dos primeiros produtos transmídia a atingir sucesso
mercadológico mundial, tendo série de tv, jogos de videogame, cardgames, mangás
e a mais variada gama de produtos que vão desde bichinhos de pelúcia até
comestíveis. O ápice da marca no mundo foi durante os anos 90 com os jogos de
gameboy e as primeiras temporadas do desenho, entretanto, a marca continuou com
muita força e influência no Japão e no oriente durante os anos 2000.
O clássico jogo de gameboy tinha
uma mecânica parecida com a de Pokémon Go, porém sendo desenhada com a
jogabilidade focada no offline (em que o jogador joga sozinho) e era um RPG
clássico em que se batalhava com inimigos randômicos, evoluía-se os monstros e
ganhava-se insígnias em ginásios, tudo girando em torno de uma história que
estava sendo contada. A versão da Niantic, ao contrário dos seus antecessores,
foi pensada para se jogar online e fora de casa e tem sua história construída
pelos próprios jogadores - basta que se procure gameplays online para que se
constate o número de narrativas criadas a partir desse simples aplicativo.
Para subir de nível é necessário
chocar ovos, que lhe dão pokémons, e para rachar esses ovos é necessário andar
2, 5 ou 10 quilômetros. Além disso, para ganhar pontos é necessário capturar o
máximo de pokémons possível, uma tarefa impossível de se fazer dentro de casa,
tendo em vista que os bichos aparecem mais em pokestops espalhadas pelos pontos
da cidade do que em outros lugares. Outra dificuldade criada pelos desenvolvedores
para que o jogador saia de casa e se comunique com outras pessoas é que quanto
mais pessoas jogando numa determinada região, maior o número de monstros que
aparecem naquela região. Ou seja, o jogo te obriga a sair de casa e ir para um
lugar onde tenha bastante gente para joga-lo. Por essa e por outras razões que
o jogo causou um rebuliço mundial. A jogabilidade, que foi adaptada do jogo
Ingress, de 2012, somada ao fator nostalgia foram os fatores que deram ao jogo
a explosão mundial.
Pokémon Go, todavia, é, nas
minhas análises, um jogo de exclusão. Quem não possui uma conexão 4G boa não
consegue joga-lo. E foi exatamente isso gerou muita controvérsia, pois no
Brasil e no resto do mundo muitas pessoas tiveram que se utilizar de hacks e
jogar o game do computador de casa ao invés de aproveitar por completo a
proposta de jogabilidade oferecida pela Niantic Games.
Guilherme T. (ele preferiu não se
identificar) é uma dessas pessoas. Não tem condições de assinar um plano de
internet móvel, então joga o game do computador de casa, usando camufladores de
IP para não ser expulso do game.
Guilherme me explicou que ao se
jogar no computador, o jogador pode escolher a velocidade que o personagem anda
e assim subir de nível mais rápido, além de poder viajar para qualquer lugar do
mundo e pegar pokémons nos lugares onde há mais jogadores. Em uma viagem que
fiz à São Paulo, pude conversar com um motorista de Uber, ele me contou sobre
como viajava até o Central Park em Nova York e lá conseguia capturar pokémons
que quase nunca aparecem.
Por isso que ao ser lançado no
Brasil já se viam pessoas com pokémons raros, como o Dragonite. Na noite de
lançamento eu já via os ginásios da redondeza onde moro dominados com
Blastoises, Venosaurs, Charizards espécies de pokémons difíceis de se pegar.
Tudo porque os brasileiros já estavam jogando o jogo através do hack desde o
seu lançamento, no dia 6 de julho.
Em última análise, Pokémon Go é
uma revolução no mundo dos games, pois é o primeiro jogo em que se é obrigado a
sair de casa, é o primeiro jogo que transforma as nossas ruas no seu sandbox.
Eu mesmo cheguei a me empolgar na época do seu lançamento e pensei que o jogo
poderia ser utilizado no combate a gentrificação (especulação imobiliária que
transforma bairros pobres em ricos).
E o jogo de fato é uma revolução.
É uma revolução, pois gerou “crise de dor nas pernas”, pois é um game que une
boa saúde ao divertimento, pois gerou integração na minha família e fez meu
irmão, por exemplo, deixar a timidez de lado e se conectar com muitas pessoas
no mundo real em detrimento do virtual (conversar com a boca ao invés dos
dedos). Entretanto, como toda revolução tecnológica, trata-se de uma revolução
atrasada e excludente. Uma revolução para os mais ricos em detrimento dos mais
pobres.
Basta olhar a realidade mais de
perto para que se consume o fato: os parques das cidades podem até ter sido
infestados por jogadores jovens e entusiasmados, mas são todos brancos, com
smartphones de última geração e acesso à internet 4G ou superior. E o jovem
brasileiro pobre, infelizmente, não é a persona que a marca Pokémon continua e
sempre insistirá em atingir.
Victor Alfons, estudante do segundo período de Comunicação Social, apaixonado por literatura, games e jornalismo cultural.





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